Super Mario

Dedicado à minha e a todas as esposas!

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Uma chuva cinza e fina despenca nas ruas da megalópole, 6°c na M.B. III Street. Os pingos molham o telhado de uma lanchonete barata, outrora famosa e frequentada; agora lhe restavam apenas algumas lâmpadas queimadas do luminoso.

Star * Burguer. A estrela de plástico, entre ambos os nomes do luminoso, jazia queimada, piscando caduca.

No estacionamento do lugar, a densa garoa corta todo o para-brisa de um veículo velho parado.
O adesivo nas portas laterais trazia um nome ilegível – talvez um slogan – da prestadora de serviços hidráulicos, velho por conta da ação do tempo, das batidas e da falta de dinheiro. Dentro do automóvel, a silhueta de alguém sentado no banco de passageiro da frente.
O dia havia sido exaustivo para ambos os irmãos, que afinal, davam duro naquele mundo de encanamentos e labirintos subterrâneos da cidade. Desde a última crise, esse tipo de mão de obra – encanador, ou bombeiro, como chamam por aqui – passou a ser a profissão para muitos outros imigrantes legais e ilegais. A certificação era fácil; a demanda, razoável.

Luigi – o mais novo – estava com os olhos melancólicos sobre a tela quebrada de seu celular. Relia uma mensagem de texto, um SMS não muito agradável. Mordiscou os lábios inferiores escondidos sob o denso bigode queimado pela nicotina.

Alias, hora de fumar um cigarro. Para isso, baixou pouco o vidro lateral. Tragou algumas vezes.

Na imagem do espelho-retrovisor lateral, vestido com seu macacão sujo há “décadas” e sua blusa desfiada de lã vermelha por baixo, Mario, o mais velho, empurra desajeitadamente a porta de vidro enquanto segura numa das mãos o pacote de lanches, e na outra uma bandeja de refrigerante.

A barriga saliente e a corrida desajeitada para se proteger do mau tempo davam um ar cômico àquele homem de quarenta e poucos anos.

Sua entrada pelo lado do motorista é igualmente desajeitada. Um jato frio de ar entra no carro, mas logo é cessado pelo fechamento.

O recém chegado põe o pacote morno no colo do irmão, para em seguida espetar os canudos, um em cada copo, e sugar o refrigerante rico em açúcar e conservantes, como se já esperasse há muito por esse momento.

Luigi já ia para a segunda mordida quando resolveu passar o outro lanche para Mario, que imediatamente pega e leva-o à boca.

O olhar dos irmãos transpassava o grande vidro e o tempo ruim, enquanto mastigavam a comida plástica de queijo, pão, ketchup e o hambúrguer. Vez ou outra misturavam o refrigerante junto do bolo alimentar na boca.

O barulho das mastigadas e dos líquidos passando pela garganta era predominante entre eles.

Após alguns minutos, Mario deixa as rebarbas de pão no saco e apóia seu cotovelo na janela do carro enquanto repousava sua cabeça contra a palma da mão.

Luigi aproveita o momento e decide olhar para o irmão, de maneira discreta, receoso de que pudesse vê-lo enquanto o observava. Os olhos de Mario pareciam marejar, e, tão logo este enxugou o nariz, num claro sinal das lágrimas vindouras, o outro virou seu rosto rapidamente para o lado de fora.

Cuidar da manutenção da figura “irmão mais velho e mais forte” era tarefa de ambos.

Repentinamente o toque analógico do celular de Luigi – Eine Kleine Nachtmusik, Mozart – que tão logo é atendido.

Notícias. Uma ou duas perguntas. O veículo parte…

***

O quarto era razoavelmente pequeno, entretanto, por ser individual e num hospital localizado no centro da cidade, o pobre encanador era eternamente grato à assistente social.

Os irmãos entraram, e em seguida Mario deixou um embrulho em cima do aparador ao lado do leito da esposa. Ele abaixou-se e disse:

 

– É “a torta de pêssego”. O médico disse que está liberada hoje! – contendo as lágrimas.

 

Ainda restava a ela forças para tirar os fios de cabelo da frente do rosto já pálido:

 

– Eu sei, meu amor. Ele me disse, também.

 

O marido, já quase ajoelhado, agarra a mão desabada da esposa no canto da cama e afunda seu rosto no dorso dela, num choro não mais represado.

 

– Ei, mio Mario, eu sou sua eterna princesa, lembra?

 

Os sons chorosos se ecoam com os de Luigi, que finalmente se aproxima e pousa sua mão no ombro do irmão. Ela continua:

 

– Pode ser durante a madrugada, durante a manhã, ou nos próximos dias – os mostradores dos aparelhos alcançaram um pico

naquele momento, como se o organismo da enferma quisesse reagir pelo pouco que podia  – de qualquer forma acalme-se.
– Como seria sem você, princesa? Como?! Lutamos tanto!
Os olhos baços da mulher ainda procuram brilhar como uma flor, pedindo por mais alguns instantes de vida. Diz:

 

– Pode contar mais daquelas fantásticas histórias tuas do Super Mario e a Princesa Peach? Gostaria de ouvi-la uma vez mais…

 

O amável homem enxuga seus olhos na manga de sua blusa, puxa para mais perto uma cadeira, senta-se e diz:

 

– O monstro Koppa, então… Quer antes um pedaço da torta, mia principessa?

 

– Não (rs) continue, por favor.

 

– Como dizia, o monstro Koppa, mais uma vez, bolava um maligno plano, adivinha? Raptar a Princesa Peach!

 

Luigi ficou de frente para a persiana. Mario gesticulava bastante enquanto narrava seu próprio conto de fadas mirabolante, com mundos de gelo, fogo, cogumelos e uma princesa, para sempre sua.

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Mestrando em Letras, com estudos voltados para Semiótica/ Linguística. Apaixonado pelo Estruturalismo, Realismo Russo, Louis Hjelmslev, meus alunos, Metal Gear Series (só até o 4 hein!) e games. Atualmente flertando com Bio Shock series, indies e Filosofia da Linguagem. Professor por amor, por escolha e por um bocado de crença.

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2 thoughts on “Super Mario

  1. Ambientação FODA. Mas se permite a critica de um ignorante, podia ter mais elementos do game, é um conto muito FODA, mas que poderia se encaixar para qualquer game/filme/quadrinho/brinquedo/geladinho que tenha a estrutura de herói e princesa

    • Imagina. O pecado é eu não conhecer tanto o jogo, como dá pra notar pelo pouco uso de elementos, entretanto, o lance é justamente esse também: eu quero que pessoas que não jogam games, ou que jogam, estejam igualmente satisfeitas com a narrativa, sem “boiar”, saca? O lance do Mozart tive que descobrir na net, mas espero que tenha notado. De resto, concordo totalmente contigo sobre a estrutura canônica. É noiz, queiroiz

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