Snake Tales: The End

Os raios de sol passam em queda-livre por sobre as copas das árvores num belo cenário selvagem, em plena Rússia. As sombras desenham formas artísticas no chão forrado de folhas mortas, musgo e líquen nos troncos. Notas de verde e marrom dão o tom ideal para uma natureza selvagem e fria.

Lista de conquistas/troféus do texto clique aqui

 

 

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Cabras selvagens bebem da água corrente a qual corta de ponta-a-ponta o lugar, da queda branda de um riacho, num nível mais elevado, ao trecho raso situado a dezenas de metros à frente, formando um tapete manso de água.

A fauna é tão viva quanto à flora, misturam-se, tornam-se uma só coisa assim como o ser que se encontra deitado de bruços, à beira do topo de uma das colinas do lugar. Imóvel, permanece plantado em sua postura, junto de seu pequeno papagaio sobre seu ombro.

O homem repousa sua cabeça sobre um dos braços enquanto respira ofegante.

Ele mantém empunhado e acomodado junto ao peito seu rifle, uma Mosin Nagant – arma utilizada no antigo império czarista.
A tão espessa barba branca e as rugas do rosto denunciam a idade daquele “ser” em profundo sono: não menos que 70 anos. Mesmo com a vestimenta militar grossa, percebe-se que seu corpo é largo, forte, apesar da idade.

Silêncio, um leve assovio da brisa, uma folha passa bem diante dos olhos fechados.

O papagaio “sussurra” coisas bem perto do robusto fone-de-ouvido dele.

– crruuaaah!

Imediatamente ele ergue sua cabeça, aproxima os olhos ainda fechados junto à mira de sua arma e se ajeita numa melhor posição, ainda permanecendo deitado.

O dedo indicador imediatamente se ajusta ao gatilho. O papagaio se assusta e salta, para logo em seguida retornar ao ombro de seu “companheiro”.

Bem próximo ao cristal da lente se abrem os olhos, órbitas salientes que se movimentam tal qual o mesmo orgão de um camaleão, permite-lhe ter uma habilidade sobre-humana: com um dos olhos, através da mira, mantém o foco sobre o alvo; o outro observa o panorama ao redor da vítima.

– Eu preciso do resto de minhas forças para esse “último suspiro”…

Fala consigo mesmo o atirador, assim que visualiza o inimigo.

– Permita-me permanecer nessa vida apenas por mais um momento. – respiração ofegante – eu dormi o suficiente…

Uma borboleta pousa sobre sua arma, mantendo as asas num movimento lento, abrindo e fechando.

– Quero agradecer-lhe! – grita de maneira a se fazer ouvir naquela imensa paisagem – pois, se você não tivesse chegado até aqui, meu sono talvez fosse… Eterno.

O homem se levanta, fazendo com que seu papagaio e a borboleta alcem voo.

– Você pode me ouvir, Snake?

Sua voz, agora numa altura muito mais elevada, reverbera graças à acústica do cenário, como se quele chamado viesse dos céus.

– Eu sou The End!

Anuncia em tom grave.

– Eu estou aqui para ser o “derradeiro” na sua vida. Você será uma boa presa para minha caçada final.

Termina The End seu discurso, voltando para sua posição de bruços de modo a se confundir com o próprio lugar.

Seu alvo, reconhecido e localizado, rapidamente corre para trás do tronco de uma árvore, protegendo-se pela porção de floresta localizada lá em baixo. A mira permanece travada, sem piscadelas, sem tremer um músculo.

Por minutos eternos o franco atirador não identifica um movimento sequer de Snake. Coelhos selvagens passam de um lado para o outro. O pó flutua através dos feixes de luz solar e o som líquido acalma o lugar. Nada de seu alvo.

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Após um tempo, The End finalmente identifica seu alvo que se pôs em franca corrida há 40 metros do ponto inicial.

Tiro. Disparo certeiro na coxa.

– Ahhrrrrr!

O franco atirador logo percebe que, onde ele mesmo se encontrava, em relação ao novo ponto em que o alvo alcançou, agora tinha certa desvantagem, e logo se põe em pé para correr freneticamente em direção a outro lugar estratégico do mapa. Outro morro, tão alto quanto.

A respiração fica mais ofegante, sua transpiração e metabolismo mais acelerados, mas tudo fica sob seu “controle” tão logo se fixa em seu novo “sniper spot”. Provavelmente estaria o agente fazendo os primeiros-socorros em si próprio a fim de remover o dardo.

Trinta segundos, quarenta, um minuto. The End procura com o outro olho algum sinal de Snake nas imediações de seu atual “esconderijo”. Estaria ele deitado detrás daquele tronco de árvore? Talvez ajoelhado entre as rochas ali próximas à margem do rio.

Uma explosão ocorre próximo à clareira, e, mais por reflexo do que por raciocínio, ele torna sua mira em direção ao ocorrido, para logo em seguida voltar ao lugar de antes.

Outros mais vinte longos segundos se passam.

– Você não pode se esconder o dia todo – resmunga o velho, e, mais uma vez, se põe a correr imediatamente em direção aos arbustos cheios, no mesmo nível do terreno que sua caça.

Sua velocidade é anormal, como que a de um super-atleta. Se equiparada a alguém de sua faixa etária, a habilidade se torna então mais assombrosa ainda.

The End se ajoelha e se acomoda em seu novo ponto de observação.

Olho próximo à mira. Papagaio recém-pousado ao ombro. Respiração.

A busca continua por mais tantos outros segundos. Fosse há décadas atrás, como quando na Segunda Guerra Mundial, The End estaria muito mais calmo e “contemplativo”.
Naquela época, lutou ao lado de The Boss e dos demais membros da unidade Cobra, podendo ficar horas seguidas, até mesmo dias, posicionado num mesmo lugar sem se alimentar regularmente. Quando muito, goles de água de um pequeno cantil, ou mesmo da chuva. É considerado o pai do conceito “franco-atiradores de elite”.

A fotossíntese que sua vestimenta realiza em conjunto com as células de seu corpo confere-lhe uma habilidade ímpar: luz solar convertida em energia corporal. Tudo graças ao seu dom e às pesquisas militares da FOX.

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Infelizmente o velho parecia não ter mais o precioso tempo ao seu lado. Sentia que o fim estava próximo, e que já havia sido suficientemente contemplado pela natureza.

Eis que finalmente, após incontáveis minutos, ele encontra seu alvo parado sobre um degrau natural no morro do outro lado do terreno, como se também estivesse à procura de um alvo através da lente de seu rifle.

Como teria chegado sem que…

Pouco importava agora.

As condições eram inadequadas: distância longa, corredor de vento, raio de sol em ângulo suspeito sobre o cristal da mira. Não há tempo para pensar.

“BLAMMM”

O barulho do tiro ecoa por todo o lugar, pássaros debandam dos galhos das árvores, contudo o disparo atinge a parede logo atrás de Snake, cerca de 30 ou 40 centímetros à direta em relação ao centro da circunferência de sua cabeça. O agente leva um susto e rapidamente inicia uma corrida para outro lugar, além de dificultar o trabalho de The End por conta do movimento.

– Maldito! O garoto tem sorte! – esbraveja, para tão logo novamente seguir de volta ao ponto inicial, ou seja, a colina mais alta dali. A ação tinha que ser rápida.

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Cansaço é o que começa a sentir The End. O velho se apoia sobre os joelhos, tentando puxar o máximo possível de ar que pode.
Ajoelha-se, empunha seu rifle, sorve mais um “gole” de ar generoso e, espantosamente, os ruídos de sua respiração cessam de maneira abrupta. Nova busca pelo alvo.

Segundos parecem minutos. Minutos parecem horas.

Os músculos doem um pouco, e logo muda sua posição para ficar de bruços.

O tempo é o verdadeiro inimigo…

Até que, finalmente, ele ouve a voz do prenúncio de um fim:

– Freeze!

 

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Agora é tudo ou nada.

Tcchhuuuuu – som abafado de tiro.

A visão começa a ficar turva.

Os sentidos se perdem.

Os dedos formigam.

 

Finalmente o fim.

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Mestrando em Letras, com estudos voltados para Semiótica/ Linguística. Apaixonado pelo Estruturalismo, Realismo Russo, Louis Hjelmslev, meus alunos, Metal Gear Series (só até o 4 hein!) e games. Atualmente flertando com Bio Shock series, indies e Filosofia da Linguagem. Professor por amor, por escolha e por um bocado de crença.

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