David, o pedestre

Cinza. Era a cor predominante que David via naquela paisagem pulsante. No céu, os prédios pareciam apenas finos entalhes geométricos. Era uma manhã qualquer entre a velocidade de automóveis e pessoas. Passos, roncos e buzinas, a música metropolitana em decibéis irregulares, invasivos e opressores. Em seu lado da avenida, pessoas transitavam, como padrão, se ignorando.

David parou rente à guia. Luzes residiam no desenho antropomórfico. Ele esperou. Enxergava muito mais cores que o vermelho, então, esperou – o tempo a ficar ali, ninguém soube ao certo. Duas pessoas se alinharam na calçada. Uma após a outra, o mediram dos pés a cabeça. Uma delas atravessou a avenida correndo, a outra, pareceu desistir do trajeto e retornou para qualquer outro lugar. David tentou seguir o primeiro. Ao fazer, quase foi atropelado. Por questão de centímetros, conseguiu voltar à calçada. Uma buzina ficou em sua mente, antes de um xingamento.

David se aprumou. Pensou em avançar novamente, mas só assistiu a uma quase repetição da cena anterior… Outra pessoa, correndo, saltou entre as faixas brancas a passos largos. Uma motocicleta habilidosa buzinou. Ambos se xingaram e seguiram suas vidas; tudo aquilo, procedimento comum.

Lá do outro lado, próximo à permanente luz vermelha, um automóvel insistia em se ajeitar entre outros. Avançou, recuou, externou, recuou um pouco mais, avançou de novo. A cena se repetiu algumas vezes. David imaginou: parecia ele mesmo, tentando atravessar e voltando para a calçada. Repetindo, repetindo…

O que David não sabia era que aquele apressado a correr em sua frente, infringindo a sinalização, tinha pressa por seu primeiro filho, que estava a nascer. Mesmo sem muito dinheiro, trabalhando em dois “bicos”, o rapaz estava alheio ao mundo, ansioso e feliz.

David não sabia, também, o motoqueiro, habilidoso, tinha horário para entregar documentos, exames e outras ” coisas” que desconhecia. Era o seu trabalho: cortar a cidade a qualquer custo e entregar coisas a tempo. Era o que garantia o pão das duas filhas recém-órfãs de mãe.

Por fim, não sabia que a mulher a insistir numa baliza desastrada não o fazia por falta de habilidade, mas por acabar de te der perdido o emprego logo no começo do dia. Aquele carro, novo, tinha todas as prestações a ver e ela não via condições de pagar. Ela só queria parar o carro, a “droga do carro”, e comer chocolate na doceria em frente. Talvez as lágrimas estivessem atrapalhando a visão.

David não sabia de nada disso. Não tinha como saber. Afinal, ele era apenas um frango adolescente, deslocado e aflito, tentando atravessar uma avenida…

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Eder Martins

Paulistano, redator, leonino, analista SEO, letrado e careca. Trabalho com Comunicação e Web desde 2001. Procuro ouvir e ler coisas novas, mas Led Zeppelin, Mary Shelley e Alan Moore continuam prediletos. Escrevo no eucontoeujogo.com.br (e pode ser que algum texto meu esteja perambulando aí pela web também).

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